Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

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Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios

Análise de Resultados

As transformações demográficas, sociais e econômicas pelas quais passa a sociedade brasileira impactam as condições de vida e saúde da população, ao mesmo tempo em que geram novas demandas para o sistema de saúde do País, pressionando-o no sentido de adaptar-se ao novo perfil de necessidades.

A desatualização dos dados dos inquéritos de morbidade e a utilização de serviços de âmbito nacional apontavam, em 1996, para a urgência de geração de novas informações capazes de orientar a fórmula ccedil;ão e acompanhamento da política de saúde no País.

Com a vigência do programa REFORSUS, no âmbito do Ministério da Saúde, foram promovidos os entendimentos necessários entre o IBGE e o Ministério da Saúde para a inclusão de uma pesquisa suplementar Saúde na PNAD 1998, um instrumento para a geração de informações populacionais atualizadas sobre o consumo de serviços de saúde no País. A inclusão da pesquisa suplementar Saúde na PNAD 1998 permite também a realização de análises sobre o consumo de serviços de saúde com a incorporação de uma grande diversidade de dados demográficos e socioeconômicos captados pelo corpo básico do questionário dessa pesquisa.

O objetivo geral da pesquisa suplementar Saúde da PNAD 1998 é subsidiar as instâncias executivas, legislativas, os Conselhos de Saúde, e o conjunto de agentes sociais e econômicos interessados no setor, na formulação, acompanhamento e avaliação das políticas de saúde, além de fornecer informações relevantes e atualizadas para o desenvolvimento de pesquisas na área de Saúde Pública. Mais especificamente busca-se com este inquérito:

  • Produzir dados de base populacional sobre o acesso a serviços de saúde no País;
  • Conhecer a cobertura dos grupos populacionais por diferentes modalidades de planos de seguro-saúde, dimensionando a população segurada;
  • Delinear o perfil de necessidades de saúde da população brasileira avaliado subjetivamente através de restrição de atividades habituais por motivo de saúde, auto-avaliação da situação de saúde; limitação de atividades rotineiras e doenças crônicas referidas;
  • Produzir dados de base populacional sobre a utilização de serviços de saúde ; e
  • Estimar o gasto privado em saúde das famílias brasileiras com planos de saúde consumo de bens e serviços e consumo de medicamentos.

A seguir apresenta-se uma primeira apreciação dos resultados da pesquisa suplementar Saúde da PNAD 1998 com base em 20 tabelas que incluem dados sobre necessidades de saúde, cobertura de planos de saúde, acesso e utilização de serviços.

Necessidades de saúde

A população brasileira residente, em 1998, foi estimada em 158,2 milhões de habitantes. Destes, 79,1% auto-avaliaram o seu estado de saúde como sendo "muito bom ou bom" e apenas 3,6% como "ruim ou muito ruim". Concentrando a análise nos que responderam "muito bom ou bom" (as demais categorias obedecem a um padrão inverso), nota-se um padrão bastante claro. Para facilidade de exposição, denominar-se-á "índice de satisfação" ao percentual, em cada categoria de análise, dos que auto-avaliam o seu estado de saúde como "muito bom e bom".

O índice de satisfação é maior entre os homens do que entre as mulheres (81,8% comparado com 76,4%). Até a idade de 14 anos este índice é praticamente igual entre os dois sexos, em torno de 92,0%. A partir daí, as mulheres apresentam invariavelmente valores menores do que os homens. Independentemente do sexo, o decréscimo da satisfação referida é monotônico, chegando a 39,4% para homens e 34,2% para mulheres com idade superior a 64 anos. Este índice não é diferente entre os residentes das áreas rurais quando comparado com os residentes das áreas urbanas e apresenta uma associação direta com níveis de renda familiar mensal, variando de 72,5% a 90,1%, à medida que se passa da classe de renda de até um salário mínimo para aqueles de renda superior a 20 salários.

A proporção de pessoas que tiveram as suas atividades habituais, nas duas semanas que antecederam a data da entrevista, restringidas por motivo de saúde foi de 6,3%. O diferencial entre os sexos é bastante semelhante ao verificado quanto ao índice de satisfação com o estado de saúde. Até a idade do início do período reprodutivo (14 anos), as mulheres apresentam igual ou até menores percentuais do que o homem. A partir desta idade o percentual de mulheres com restrição de atividades é sempre maior do que aquele dos homens. O padrão por idade apresenta uma forma em J, com níveis menores entre os grupos de idade entre 5 a 19 anos, aumentando então progressivamente, chegando a 13,8% e 15,9% nas idades de 65 anos ou mais, respectivamente, para homens e mulheres. A relação com os níveis de renda familiar mensal é inversa até a classe de 5 a 10 salários mínimos. Nesta classe a proporção é de 5,5%, sendo maior (8,2%) para os indivíduos com renda menor ou igual a um salário mínimo. A partir da classe de renda familiar de 5 a 10 salários mínimos os valores se estabilizam em torno de 5,0%.

Estendendo-se o número de dias com restrição de atividades habituais para toda a população e anualizando-a, obtém-se a média de dias, num ano, que um brasileiro tem as suas atividades restringidas por motivo de saúde. Esta média é de dez dias, variando de sete dias a 31 dias à medida que se passa de crianças de 0 a 4 anos no sentido das faixas etárias mais velhas. Os diferenciais por sexo e idade e renda familiar seguem os padrões descritos no parágrafo anterior.

Com relação às doenças crônicas reportadas, 31,6% da população brasileira reportou ser portadora de pelo menos uma doença crônica. Este percentual é de 27,7% para homens e 35,3% para mulheres. Até a idade de 14 anos, esta proporção é menor para as mulheres e, repetindo o padrão de outras variáveis de estado de saúde, esta supera a dos homens em todos os grupos de faixa etária mais velha. A relação inversa que se verifica entre estes percentuais e a renda familiar não é tão acentuada como nos dois casos anteriores, passando de 33,0% entre aqueles com renda de um salário mínimo ou menos, até os 29,8% entre aqueles com mais de 20 salários.

Principais conclusões:

  • O perfil de necessidades em saúde no Brasil, em 1998 - apreendido através das variáveis auto-avaliação do estado de saúde, restrição de atividades habituais por motivo de saúde e doença crônica reportada - apresenta características comuns:
  1. As necessidades em saúde têm um padrão de distribuição segundo a idade em J, ou seja, as pessoas no início e particularmente no final da vida apresentam mais problemas de saúde;
  2. Os homens referem mais problemas de saúde do que as mulheres apenas nas idades mais jovens - início da adolescência. A partir dos 14 anos de idade são as mulheres que passam a referir problemas de saúde com maior freqüência;
  3. Estes padrões referentes à idade e sexo são semelhantes aos observados em outros países; e
  4. Estudos realizados em outros países indicam que a necessidade em saúde apresenta forte gradiente social e tende a ser desfavorável aos indivíduos em posições sociais menos favorecidas. Observa-se também no Brasil que o número de pessoas que referem problemas de saúde diminui à medida em que a renda familiar aumenta, definindo um padrão de marcadas desigualdades sociais em saúde.

Cobertura por plano de saúde

Estima-se em 38,7 milhões o número de brasileiros cobertos por pelo menos um plano de saúde, o que corresponde a 24,5% da população do País. Destes, 29 milhões (75%) estão vinculados a planos de saúde privados (operadoras comerciais e empresas com plano de auto-gestão) e 9,7 milhões (25%) estão vinculados a planos de instituto ou instituição patronal de assistência ao servidor público civil e militar. A cobertura de planos de saúde é expressivamente maior (29,2%) nas áreas urbanas do que nas áreas rurais (5,8%).

Calcula-se que 25,7% das mulheres e 23,0% dos homens brasileiros estejam cobertos por um plano de saúde. O percentual da população brasileira que possui um plano de saúde varia de um mínimo de 20,7% entre pessoas de até 18 anos, a um máximo de 29,5% entre pessoas de 40 a 64 anos de idade. Entre pessoas com mais de 65 anos a cobertura atinge 26,1% para os homens e 28,2% para as mulheres.

A cobertura por plano de saúde é também maior entre as pessoas que avaliam seu estado de saúde como "muito bom e bom" (25,9%) e diminui à medida em que a autoavaliação do estado de saúde piora. Entre as pessoas que avaliam como "ruim ou muito ruim" seu estado de saúde a cobertura é menor: 14,5%.

Observa-se uma associação positiva entre cobertura de plano de saúde e renda familiar: a cobertura é de 2,6% na classe de renda familiar inferior a um salário mínimo, cresce para 4,8% entre pessoas cuja renda familiar está entre 1 e 2 salários mínimos, e passa a crescer com maior intensidade nas demais classes de renda: 9,4% (2 a 3 salários mínimos), 18,0% (3 a 5 salários mínimos), 34,7% (5 a 10 salários mínimos) e 76% (20 salários mínimos e mais).

Cerca de 60% dos planos de saúde no País contam com financiamento integral (13,2%) ou parcial (46,0%) do empregador do titular. O titular paga integralmente o plano em aproximadamente 30% dos casos e cerca de 10% dos titulares têm seus planos financiados por outras pessoas.

Os titulares dos planos de saúde concentram-se no grupo etário de 19 a 39 anos de idade (47,4%). Titulares dos planos de assistência ao servidor público são, em média, mais velhos comparativamente aos titulares dos planos privados de saúde. Vale destacar que 4,0% dos titulares têm menos de 18 anos (5,0% entre os titulares dos planos de saúde privados). Observa-se também entre os titulares uma maior proporção (58,2%) de homens (59,6% nos planos de saúde privados e 53,4% nos planos de assistência ao servidor público).

Os titulares dos planos de saúde têm em média 1,4 dependentes (1,3 nos planos de saúde privados e 1,6 nos planos de assistência ao servidor público). Os titulares dos planos de saúde têm, em média, 1,4 dependentes nas áreas urbanas e 1,6 dependentes nas áreas rurais.

Entre os dependentes, 53,6% tem até 18 anos de idade (52,6% nos planos de saúde privados e 56,4% nos planos de assistência ao servidor público). Neste grupo, diferentemente do que ocorre com os titulares, predominam as mulheres (62%) - 63,4% nos planos de saúde privados e 59,3% nos planos de assistência ao servidor público.

O valor da participação dos titulares no financiamento do plano de saúde aumenta conforme o incremento da renda familiar: 7,3% dos titulares com renda familiar até 5 salários mínimos gastam mais do que R$100,00 por mês no financiamento de seu plano de saúde; esta proporção sobe para 16,6% entre os titulares com renda familiar de 5 a 10 salários mínimos e para 40% entre os titulares com renda familiar maior que 10 salários mínimos.

Considerando apenas os titulares que têm plano de saúde através do trabalho, o gasto com mensalidade também aumenta na medida em que a renda deste trabalhador aumenta, porém em menor intensidade do que no caso dos titulares que contratam os planos de saúde diretamente. No primeiro caso gastam mais de R$100,00 por mês no financiamento de seu plano de saúde 2,5% dos titulares com renda familiar até 5 salários mínimos; 8,1% com renda de 5 a 10 salários mínimos e 27,1% com renda maior do que 10 salários mínimos. Já, dentre os titulares que não têm plano de saúde através do trabalho, a distribuição de acordo com a renda familiar dos que gastam mais de R$100,00 por mês no financiamento de seu plano de saúde é a seguinte: 17,3% com renda familiar de até 5 salários mínimos; 32,0% com renda de 5 a 10 salários mínimos e 55,1% com renda maior que 10 salários mínimos.

Dito de outra forma, cerca de 30% dos titulares que participam no financiamento do seu plano de saúde gastam até R$30,00 por mês no pagamento das mensalidades; esta proporção aumenta (40,6%) no caso dos titulares com planos vinculados ao trabalho e cai (12,1%) no caso dos titulares que financiam seus planos diretamente ou através de outras pessoas. Verifica-se, assim, que a participação do empregador no financiamento do plano de saúde reduz o gasto do titular com este item de despesa. Entretanto, quando se considera apenas os titulares que não desembolsam qualquer valor para o financiamento do plano de saúde, nota-se um predomínio de titulares nas classes de renda familiar mais alta. Isso ocorre independentemente do plano de saúde contar ou não com a participação do empregador.

Nos titulares com mais de 10 anos de idade predominam (80,1%) aqueles que exerciam alguma ocupação na semana de referência da pesquisa. Esta freqüência é semelhante entre titulares de plano de saúde privado e aqueles de plano assistência ao servidor público. No conjunto, 16,0% dos titulares exercem atividades no ramo social que engloba os serviços comunitários e sociais, serviços médicos, odontológicos e veterinários e serviços de ensino; 15,8% trabalham na indústria de transformação e cerca de 10% trabalham nas áreas de comércio de mercadorias e de administração pública. São menos freqüentes os titulares de plano de saúde que trabalham nos ramos da agricultura e da construção (2,1% e 1,8% respectivamente).

A distribuição dos titulares ocupados por ramo de atividade é distinta quando são considerados os planos de saúde privados e os planos de assistência ao servidor público. No primeiro caso, os titulares se concentram na indústria de transformação (20,0%), no comércio de mercadorias (12,9%) e nas atividades sociais (11,5%); já no segundo caso, a ocupação dos titulares está concentrada nas atividades sociais (30,6%) e de administração pública (30,5%).

A participação do empregador no financiamento dos planos privados de saúde varia de acordo com a atividade do titular. Os titulares que contam com maior participação do empregador no financiamento do seu plano concentram-se nas seguintes áreas: indústria de transformação (82,1%), de transportes e telecomunicação (74,2%), de outras atividades industriais (extração mineral e serviços industriais de utilidade pública) (87,2%) e de outros ramos de atividades (onde se inclui atividade do ramo financeiro) e daquelas atividades mal definidas (80,0%).

Dentre os titulares que não trabalham - categoria na qual incluem aposentados e pensionistas - somente 13,6% tem seu plano de saúde financiado com a participação de empregador, sendo que 33,8% desses titulares têm o plano financiado por outras pessoas.

Considerando-se a abrangência do contrato, 91,7% dos planos de saúde (exceto planos odontológicos) no Brasil oferecem um pacote de serviços que inclui consulta médica, exames complementares e internação hospitalar. A distribuição deste tipo de plano é semelhante nos titulares do sexo masculino e feminino e nos diferentes grupos etários.

Em relação à natureza do contrato, os planos de saúde cujo contrato envolve unicamente o reembolso de gasto com serviços de saúde representam apenas 0,09% dos planos. A modalidade de contrato mais freqüente (49,5%) inclui atendimento em serviços próprios e contratados, além do reembolso de gastos com serviços de saúde.

O co-pagamento está presente em 21,4% dos planos e é mais freqüente nos planos com coberturas pouco abrangentes, isto é, naqueles que cobrem apenas consultas médicas (38,5%) e consultas e exames complementares (45,6%). Por outro lado, o co-pagamento é menos freqüente nos planos de saúde com cobertura que envolve internação hospitalar. Nos planos de saúde que cobrem apenas internação hospitalar o co-pagamento está presente em 7,5% dos casos.

Principais conclusões:

    Cerca de 39 milhões de brasileiros(as) estão cobertos por Planos de Saúde privados (29 milhões) e de instituto ou instituição patronal de assistência ao servidor público civil e militar (9,7 milhões). Esta estimativa é inferior aos números divulgados pela Associação Brasileira de Medicina de Grupo (ABRAMGE) - 41 milhões de pessoas cobertas apenas pelos planos de saúde privados em 1998. No caso dos Estados Unidos a cobertura por planos de saúde públicos e privados é da ordem de 84% e é muito menor nos países europeus.

    A cobertura por plano de saúde é expressivamente maior nas áreas urbanas; um pouco superior nas mulheres e nas pessoas entre 40 e 64 anos de idade. É também maior nas pessoas que avaliam o seu estado de saúde como " muito bom ou bom", e aumenta com a renda familiar.

    Comparativamente aos planos de saúde de instituto ou instituição patronal de assistência ao servidor público civil e militar, os planos de saúde privados têm titulares mais jovens, com maior proporção de homens e, em média, menor número de dependentes.

    60% dos planos de saúde no País contam com a participação do empregador do titular no seu financiamento. O valor da mensalidade dos planos aumenta com a renda familiar do titular, mas o gasto privado com a mensalidade reduz-se expressivamente nos planos que contam com a participação do empregador do titular no financiamento.

    A participação do empregador no financiamento do plano varia segundo o ramo de atividade do titular sendo maior na indústria de transformação e outras atividades industriais, transportes e telecomunicações e atividades que incluem aquelas do ramo financeiro.

    A modalidade de contrato mais freqüente é abrangente e inclui serviços ambulatoriais, hospitalares e de exames diagnósticos e terapêuticos.

    Os contratos típicos que caracterizam as operadoras de seguro saúde - apenas reembolso - são os menos freqüentes. Prevalecem aqueles em que a operadora presta cuidados em serviços próprios e, também, permite atendimento em serviços credenciados ou efetua reembolso de gasto com atendimento de saúde em serviços não credenciados.

    A inclusão nos contratos de medida de contenção do uso de serviços através do co-pagamento é uma prática observada em um quinto dos planos de saúde do País.

    Os planos de saúde atuam no sistema de saúde brasileiro introduzindo mais um elemento de geração de desigualdades sociais no acesso e na utilização de serviços de saúde, na medida em que cobrem uma parcela seleta da população brasileira na qual predomina: pessoas de maior renda familiar, inseridas em determinados ramos de atividade do mercado de trabalho e que avaliam seu estado de saúde como "muito bom" ou "bom".

Acesso e utilização de serviços de saúde

Estima-se em 112,6 milhões (71,2% da população brasileira) o número de pessoas que tem um serviço de saúde de uso regular. Dentre os serviços de uso regular, em ordem de importância, aparecem:

    Posto ou Centro de Saúde: 41.8%
    Ambulatório de Hospitais: 21.5%
    Consultório Particular: 19.7%
    Ambulatório ou Consultório de Clínica 8.3%

    Pronto-Socorro: 4.8%
    Farmácia: 2.2%
    Ambulatório de Empresa ou Sindicato: 1.5%
    Agentes Comunitários: 0.1,%

Entre as pessoas que procuram regularmente o Posto ou Centro de Saúde não existe uma diferenciação significativa segundo sexo, já que apresentam valores similares próximos a 42%. Em função da idade observa-se que é a população jovem - de 0 a 18 anos - a que mais procura este tipo de serviço. À medida que aumenta a renda familiar mensal, menor é a procura pelos Postos e Centros de Saúde. Cerca de 55,0% da população nas duas primeiras faixas de renda média familiar (até 2 salários mínimos) declararam procurar, em caso de necessidade, serviços com estas características.

As pessoas que referem procurar atendimento em ambulatórios de Hospitais não apresentam nenhuma diferença segundo o sexo e idade, constatando-se porcentagens próximas aos 21,0%, nos homens assim como nas mulheres, e em todas as faixas etárias. Esta modalidade de serviço médico é procurada, majoritariamente, pela população com menor nível de renda (até 2 salários mínimos).

A população idosa - em especial as mulheres- e com maior nível de renda é a que procura com maior intensidade os consultórios particulares quando necessita de algum tipo de atendimento à saúde. As farmácias são mais procuradas pelos homens adultos jovens, de 19 a 39 anos, e pela população que declarou até 1 salário mínimo de renda média mensal.

Cerca de 86,5 milhões de pessoas (54,7% da população brasileira) declararam ter consultado médico nos últimos 12 meses. Os grupos populacionais que mais consultaram médico no ano anterior foram: mulheres (62,3%); crianças menores de 4 anos (68,4%); pessoas maiores de 65 anos (73,2%); e os residentes em áreas urbanas (57,2%).

Existe uma alta correlação positiva entre acesso ao médico e o poder aquisitivo da população. Enquanto 49,7% das pessoas de menor renda familiar declararam ter consultado médico nos últimos 12 meses, esse valor sobe para 67,2% no caso daquelas pessoas com mais de 20 salários mínimos de renda familiar.

Observa-se que a partir dos 40 anos intensifica-se o número de consultas médicas realizadas a cada ano. Esta mesma tendência pode ser constatada com relação à renda média familiar. São os homens (58,8%) e a população residente em áreas rurais (59,1%) os que declaram consultar médico com menor freqüência (1 a 2 consultas).

Um número expressivo, estimado em 29,6 milhões de pessoas (18,7% da população brasileira) nunca consultou dentista, apresentando-se as maiores proporções nas crianças menores de 4 anos (85,6%), nos homens (20,5%) e na população residente em áreas rurais (32,0%).

Mais uma vez fica registrado o importante efeito da renda familiar média sobre o acesso aos serviços de saúde. A porcentagem que nunca consultou dentista é nove vezes superior para as pessoas com renda de até 1 salário mínimo, quando comparadas com as que recebem mais de 20 salários mínimos.

Este mesmo efeito constata-se em relação ao tempo decorrido a partir da data última consulta. Dentre os que consultaram dentista há mais tempo (3 anos ou mais) a maior concentração de pessoas está na população de menor renda familiar mensal. A população jovem - até 19 anos - , as mulheres, os residentes em áreas urbanas são os que consultaram este tipo de serviço mais recentemente, sugerindo que utilizam serviços odontológicos com maior freqüência.

Estima-se que 20,5 milhões de pessoas (13,0% da população do País ) buscaram atendimento de saúde nos 15 dias precedentes à entrevista. Esta proporção foi mais elevada entre as mulheres (15,8%) do que entre os homens (10,1%). Destes, foram atendidos na primeira ou última procura 98,0%, sem diferença relevante entre os sexos. Note-se que este alto índice de atendimentos inclui atendimento pelo SUS, atendimentos através de plano de saúde e aqueles financiados por recursos próprios, e que foi computado o atendimento na primeira ou na última tentativa.

A porcentagem de demandas atendidas (prevalência de atendimento) foi bastante elevada para todos os níveis de rendimento familiar, mas ainda assim encontrou-se uma tendência clara de aumento desta prevalência para famílias de maior renda. A prevalência observada para famílias de até 1 salário mínimo foi de 97,0%, passando para 99,7% para famílias com rendimento acima de 20 salários mínimos. A prevalência de atendimento foi máxima quanto à procura de atenção para pré-natal e parto (99,0%) e mínima para atendimento a doenças (97,6%).

O principal motivo de procura de serviços foi exame de rotina, prevenção ou vacinação, com 37,3% das referências. Em segundo lugar vieram as procuras por motivo de doença, com 33,5% das referências. A demanda por serviços odontológicos (excluídos os preventivos) foi de 10,9% do total. Foram observadas marcadas diferenças entre os sexos, com as mulheres realizando mais buscas por atendimentos de rotina ou prevenção (40,5%, contra 32,2% dos homens). Os homens buscaram mais os serviços por doença (36,3%, contra 31,7% das mulheres). Estes também apresentam uma busca muito mais freqüente por acidentes ou lesões (7,1%) do que as mulheres (2,6%).

Entre os indivíduos atendidos nas duas semanas anteriores à entrevista (20,1 milhões) 35,8% utilizaram o plano de saúde para o pagamento do atendimento recebido. Do total de pessoas atendidas, 49,3% (9,9 milhões) dos atendimentos foram realizados pelo SUS e 15,8% do total de pessoas atendidas pagou algum valor em dinheiro por este atendimento. O coeficiente de utilização de serviços de saúde foi 12,7 por 100 habitantes e variou de 11,4 por 100 pessoas no grupo de renda familiar mais baixa a 17,1 por 100 pessoas no grupo com renda familiar maior do que 20 salários mínimos.

O atendimento recebido foi bastante bem avaliado. Receberam menção "bom" ou "muito bom" 86,2% dos atendimentos. Apenas 2,4% deles foram classificados como "ruim" ou "muito ruim".

O atendimento odontológico é o que mais se diferencia dos demais, com apenas 16,5% dos atendimentos com pagamento por plano de saúde e 46,9% com pagamento em dinheiro. A alta freqüência de atendimentos pagos em dinheiro sugere que, em boa medida, a população que faz uso de serviços odontológicos é de um estrato social superior. Neste grupo, o atendimento através do SUS cai para 24,6%, enquanto que a avaliação do atendimento de "muito bom" ou "bom" sobe para 93,1%.

Os principais motivos indicados para o não atendimento das demandas numa primeira busca foram indisponibilidade de senha ou vaga (45,6%) e falta de médico para o atendimento (28,6%). Não foram observadas diferenças relevantes entre os sexos neste aspecto.

Das pessoas que não procuraram serviços de saúde, 96,0% delas não o fizeram porque não tiveram necessidade. Das restantes, 5,5 milhões, ou 21,0% das que declararam ter tido necessidade de atenção à saúde, 32,5% não procuraram um serviço por falta de dinheiro, 17,0% não procuraram por ser o serviço distante ou o acesso/transporte difícil, 13,0% não procuraram porque consideram o atendimento muito demorado e 9,9% porque o horário do serviço era incompatível com o seu. Outras razões apresentadas com menor freqüência foram a não disponibilidade do especialista desejado, achar que não tinham direito e a falta de acompanhante.

Cerca de 11 milhões de pessoas no País tiveram uma ou mais internações hospitalares no ano que antecedeu à entrevista, correspondendo a um coeficiente de internação hospitalar de 6,9 por 100 habitantes. Entre as pessoas que se internaram, 20,3% tiveram 1 ou mais reinternações no período. O maior coeficiente de internação ocorreu no grupo etário com mais de 65 anos de idade (14,8 por 100 pessoas no grupo) e o menor no grupo etário de 5 a 19 anos (3,7 por 100 pessoas no grupo). Nos demais grupos etários, os coeficientes de internação hospitalar foram semelhantes, em torno de 7,7 por 100 habitantes. Os coeficientes de internação foram maiores nas mulheres (8,7 por 100 mulheres) comparativamente aos homens (5,1 por 100 homens). Praticamente não se observa variação nos coeficientes de internação entre as populações das regiões urbana e rural (7,0 e 6,7 por 100 pessoas em cada grupo respectivamente).

Os coeficientes de internação hospitalar apresentaram uma relação inversa com a renda familiar: decresceram linearmente entre o grupo de menor renda familiar (8,7 por 100 pessoas no grupo) - até 1 salário mínimo - e o grupo de maior renda familiar (6,1 por 100 pessoas no grupo) - mais do que 20 salários mínimos. Entretanto, é preciso destacar que as pessoas sem rendimento foram as que apresentaram o maior coeficiente de internação hospitalar (11,5 por 100 pessoas no grupo).

Considerando apenas a última internação ocorrida no ano, 63,1% foram realizadas através do Sistema Único de Saúde - SUS. Destas internações, 6,3% eram pessoas que declararam ter plano de saúde. Por outro lado, 5,2% das pessoas que declararam ter se internado através do SUS, também declararam ter pago algum dinheiro por esta internação. Já, entre as pessoas com cobertura de plano de saúde que foram internadas, 86,8% declararam ter tido sua internação financiada pelo plano de saúde.

Principais conclusões:

    A PNAD 98 apontou importantes problemas de acesso aos serviços de saúde no País:

  1. Cerca de um terço da população brasileira não tem um serviços de saúde de uso regular;
  2. O tipo de serviço usado como porta de entrada ao sistema de saúde - serviço de uso regular - varia segundo a idade, o sexo e, principalmente, a renda familiar. As pessoas mais jovens e aquelas com menor renda familiar têm como porta de entrada mais usual os postos ou centros de saúde, enquanto o consultório privado é mais procurado por mulheres, idosos e pessoas de nível mais alto de renda;
  3. O acesso a consultas médicas e odontológicas aumenta expressivamente com a renda e é maior nas áreas urbanas;
  4. Cerca de um quinto da população brasileira nunca foi ao dentista. Entre os residentes em área rural 32% nunca consultou dentista;
  5. Aproximadamente 5 milhões de pessoas referiram ter necessitado mas não procuraram um serviço de saúde, sendo que a justificativa mais freqüente desta atitude foi a falta de recursos financeiros
  6. Entre as pessoas atendidas cerca da metade teve seu atendimento realizado através do SUS, e aproximadamente um terço das pessoas referiu ter utilizado plano de saúde para receber este atendimento;

Do total de atendimentos, cerca de 16% implicaram em algum pagamento por parte do usuário;

O atendimento recebido foi bastante bem avaliado pelas pessoas que usaram serviços de saúde;

Aproximadamente sete pessoas por cada 100 habitantes foram hospitalizadas no ano que antecedeu a pesquisa. Este coeficiente não variou entre residentes nas áreas rurais e urbanas e foi maior para as mulheres. Inversamente ao observado para o uso de serviços de saúde em geral, que aumenta à medida em que aumenta a renda familiar, a freqüência de internações decresce à medida em que aumenta a renda familiar;

Cerca de dois terços das pessoas foram internadas através do SUS, sendo que 6,3% destas declararam possuir algum plano de saúde e 5,2% declararam ter pago algum valor pela internação;