Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

English Español
A- A+

Associativismo, Representação de Interesses e Intermediação Política

Análise dos Resultados

Os temas do associativismo, participação e representação de interesses foram objeto de investigação do suplemento da Pesquisa Mensal de Emprego (suppme) de abril de 1996, que abrange seis das dez áreas metropolitanas do país: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Somadas suas populações, nestas áreas se encontram, cerca de 25% da população brasileira. O tema do associativismo foi, também, objeto da pesquisa suplementar da PNAD / 1988( * ) , o que permite acompanhar alguns de seus aspectos nos últimos oito anos.

O texto que se segue examina um conjunto de informações geradas pelo suplemento da suppme / abril de 1996. A primeira parte traça o perfil do associativismo nas regiões metropolitanas pesquisadas, tendo como base os dados sobre a filiação a sindicatos, a associação a órgãos de classe e a associação a órgãos comunitários; examina, ainda, as preferências de filiação e associação segundo sexo e idade. A segunda parte explora os dados sobre envolvimento não institucionalizado com política em geral (contatos pessoais com políticos e governantes); sobre participação através de canais institucionalizados do sistema de representação política ( partidos políticos e voto), sobre o sistema de representação de interesses e, finalmente, examina as preferências na utilização das fontes de informação sobre os acontecimentos políticos.

1. O perfil do associativismo através do suplemento - suppme/1996

Os dados suplementares da suppme/1996 informam sobre três tipos de associativismo: sindical, de classe (associação a órgão de classe) e o associativismo comunitário. O associativismo sindical inclui os sindicatos de empregados e de empregadores; o de classe inclui os órgãos de classe, que reúnem facultativamente pessoas pertencentes a categorias profissionais ou econômicas; e, finalmente, o comunitário, abrange as associações de bairro, associações religiosas, recreativas, filantrópicas, e "outras" não especificadas.

Dos 22,5 milhões de pessoas de 18 anos ou mais de idade pesquisadas* , 31% tinham vínculo com um ou mais dos três tipos de associação acima considerados, na seguinte proporção: sindicato (53%), órgão comunitário (39%) e associação de classe (8%) (Gráfico 1).

Fonte: IBGE, Suplemento suppme / Abril 1996

Gráfico1

A preferência pela filiação a sindicato e pela associação a órgão comunitário ocorre em contexto de baixa taxa de associativismo em geral: não são filiados a um e a outro, respectivamente, 84% e 88% da população pesquisada (Gráfico 2).

Comparando-se os dados do suplemento da suppme/1996 com os resultados da pesquisa suplementar da PNAD/1988 (gráficos 1 e 3), vê-se que o associativismo sofreu alterações no período entre as duas pesquisas. Embora a proporção das filiações tenha permanecido praticamente a mesma ( 29% em 1988 e 31% em 1996), em 1988 a filiação a órgãos comunitários superava a filiação aos sindicatos na preferência da população (49% contra 35%) , e as associações de classe perderam no período, capacidade de motivar adesões.

1.1 O Associativismo nas Regiões Metropolitanas

Pelo Gráfico 4 vê-se como o associativismo se estrutura nas seis áreas metropolitanas pesquisadas. O sindicalismo é o tipo predominante de associativismo, com exceção de Porto Alegre. Esta se destaca das demais em dois aspectos, a saber: o associativismo de tipo comunitário congrega a mesma proporção de pessoas que o sindicalismo; e em ambos a área metropolitana de Porto Alegre obtém taxas de participação maiores do que as das demais, com a taxa de participação em sindicato superando, inclusive, a da área metropolitana de São Paulo (Gráfico 4).

Confirmando o que já haviam mostrados os gráficos anteriores, neste gráfico 4 vê-se, também, que as associações de classe não se destacam em nenhuma das seis áreas.

1.2 Filiação a Sindicatos e Associação a Órgãos Comunitários

Pertencer à PEA não afeta a filiação dos homens ao sindicato, nem a sua associação a órgãos de classe e a órgãos comunitários. Mas entre as mulheres, estar na população economicamente ativa eleva a taxa de associativismo de tipo sindical, duplicando-a, porém mantendo-a num patamar inferior à taxa de sindicalismo masculino (Gráfico 5).

No total da população de 18 anos ou mais de idade os homens se filiam mais a sindicatos do que as mulheres: entre eles esta preferência é duas vezes maior do que entre as mulheres. Estas se dividem em proporções iguais entre os sindicatos e os órgãos comunitários (Gráfico 6).

A filiação a sindicatos é ligeiramente superior para os que estão entre os 40 e 59 anos, quando estes são comparados com a faixa etária mais jovem (Gráfico 7).

Pelo mesmo gráfico 7 , vê-se que idade não produz diferenças notáveis na associação a órgãos comunitários, quando estes são considerados em conjunto.

Mas quando separados (Gráfico 8), observa-se que aqueles relativos a igrejas ou denominações religiosas congregam uma proporção significativamente maior de pessoas na faixa de 60 anos ou mais de idade.

Vê-se ainda pelo Gráfico 8 que a proporção de pessoas que está associada a tais órgãos comunitários com inspiração religiosa é significativamente maior do que a proporção das que estão associadas a associações de bairro ou de moradores, esportivas ou culturais.

2 - Envolvimento com política, participacão e representação de interesses

Nesta seção estão organizadas informações sobre: 1) envolvimento político não institucionalizado, que consiste em contatos com políticos e governantes através de meios informais, tais como carta, telefonemas e contato pessoal; 2) envolvimento institucionalizado, ou participação através do sistema de representação política , partidos e voto; 3) fontes de informação política e 4) percepção sobre quais instituições defendem melhor os interesses do entrevistado.

2.1 - Envolvimento com Política

2.1.1 - Contatos com Políticos e Governantes

É reduzido o total de pessoas de 18 anos ou mais de idade das seis regiões metropolitanas que fizeram contato com políticos e governantes nos 2 anos que antecederam à pesquisa suplementar da suppme / 1996( maio de 1994 a abril de 1996).

Em números absolutos, não mais do que 1,8 milhões de pessoas, dentre as 22,5 milhões pesquisadas( * ); em proporções, de cada 10 pessoas, 1 ( uma ) procurou político ou governante pessoalmente, através de carta ou de ligação telefônica. E quando o fez foi, principalmente, para pedir (47%) ou apresentar algum tipo de reivindicação (21%) e, com menor freqüência, fazer alguma sugestão (15%)( Gráfico 9).

Tais resultados reforçam os dados da Pesquisa Suplementar da PNAD/1988 (Gráfico 9.1), apresentando, tão somente, diferenças de magnitude nas proporções. Nota-se que entre as duas pesquisas aumentou a proporção de contatos ( de 4:100 em 1988 para 8:100 em 1996) dos quais, aqueles visando fazer pedidos diminuíram sensivelmente, ou seja, de 53% em 1988 caiu para 47% em 1996.

Através dos dados para as áreas metropolitanas, vê-se algumas particularidades na área de Porto Alegre. Nesta, observa-se por um lado, a menor freqüência de contatos e, por outro, a combinação de menor freqüência para fazer pedidos, com maior freqüência de contatos visando a reivindicações e sugestões. Na posição oposta à da área metropolitana de Porto Alegre está a de Recife, com a maior proporção de pessoas que entraram em contato com políticos e governantes para fazer pedidos (Gráfico/Tabela 10).

Fonte: IBGE, Suplemento suppme / Abril de 1996

Gráfico 10

Fonte: IBGE, Suplemento suppme / Abril de 1996

Tabela 10

2.1.2 - Participação em Atividades Político-Sociais

Participam de atividades político-sociais 18% do total das pessoas de 18 anos ou mais de idade, pesquisadas pela suppme / 1996, correspondendo a 4,1 milhões de pessoas num total de 22,5 milhões. Desta fração mais participativa, 60% assinam listas e abaixo-assinados, o que faz com que esta seja a forma predominante de participação. Nesse contexto de baixa participação, não é desprezível a proporção de pessoas que declarou participar de reuniões de grupos locais e de trabalho voluntário para associações locais (Gráfico 11).

A escolaridade é um fator que afeta o grau de participação em atividades políticas e sociais, como se vê no Gráfico 11. Com o aumento do número de anos de estudos cresce gradativa e regularmente a proporção de pessoas que participa destas atividades. Comparando os extremos, o número de pessoas participativas é proporcionalmente três vezes maior entre aquelas com 11 anos e mais de estudo do que entre aquelas sem instrução ou com menos de quatro anos de estudo.

Além disto, o nível de escolaridade afeta diferentemente a escolha das formas de participação política e social. Como se vê pelo Gráfico 11.1 , assinar listas e abaixo-assinados é uma forma de participação que mobiliza uma fração proporcionalmente igual de pessoas em todas as faixas de escolaridade. Há decréscimo regular na medida em que aumenta o nível de escolaridade.

A participação em greves, todavia, apresenta uma tendência crescente na medida em que se eleva o nível de escolaridade, o mesmo ocorrendo com a participação em manifestações de protesto. Inversamente, a participação através de reuniões de grupos locais apresenta um decréscimo regular na medida em que aumenta o nível de escolaridade.

2.1.3 - Conhecimento do nome dos governantes e utilização de fontes de informação sobre os acontecimentos políticos.

Os dados da pesquisa suplementar da suppme/1996 permitem observar que na população pesquisada de 18 anos ou mais de idade, 3 em cada 10 pessoas não sabiam o nome do governador de seu estado e 2 em cada 10 desconheciam os nomes do

Presidente da República e do Prefeito de sua cidade. O Gráfico 12 repete estes números em forma de percentuais. O nível de instrução afeta de forma diferente o conhecimento do nome dos governantes. Dentre aqueles que os desconhecem, a proporção de pessoas que ignora o nome do Presidente da República é progressivamente menor à medida em que se eleva o nível de instrução, exatamente o oposto do que ocorre com o nome do prefeito: a proporção de pessoas que o ignora é progressivamente maior à medida em que se eleva o nível de instrução. O desconhecimento do nome do governador, todavia, não é afetado pelo nível de escolaridade: sendo o nome menos conhecido dentre os três , é praticamente a mesma a proporção de pessoas que o ignora em todos os níveis de instrução (Gráfico 13).

A maioria das pessoas entrevistadas na pesquisa suplementar da suppme/1996 procura algum meio de se informar sobre os acontecimentos políticos (Gráfico 14), e a proporção cresce com o nível de escolaridade.

Também, a proporção das pessoas que procura uma fonte de informação de preferência varia com o nível de escolaridade, exceto no caso da televisão. Em todas as faixas de escolaridade a maioria das pessoas que se informam sobre os acontecimentos políticos o fazem pela televisão (Gráfico 15). A proporção das pessoas que utiliza os jornais para se informar aumenta com o nível de escolaridade: uma pessoa em quatro pessoas com nível de instrução correspondente ao primeiro grau incompleto ( 4 a 7 anos de estudo) utiliza o jornal, razão que aumenta para 1:3 no nível de 8 a 10 anos de estudo, e para 1:2 no nível mais alto de escolaridade.

2.2 Participação Política: Partidos Políticos e Voto

Nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pela suppme/1996, não mais do que 3% da população de 18 anos ou mais de idade era filiada a partidos políticos.

Gráfico16

Em números absolutos, este percentual corresponde a não mais do que 660 mil pessoas. Tal grupo se constituía de uma fração maior de homens, de membros da PEA e de pessoas de nível mais alto de instrução (Gráfico 16).

As pessoas entrevistadas declararam simpatia por algum partido político, na proporção de 20%. Suas preferências, entretanto, se concentraram no Partido dos Trabalhadores, que foi escolhido por 48% dos simpatizantes, ficando os restantes 52% istribuídos pelos demais partidos, dentre os quais o PMDB, PDT, PFL e PSDB (Gráfico 17).

Gráfico 17

Confirmando a reduzida proporção de pessoas que se filia a partidos políticos ou simpatiza com algum deles, o candidato é mais importante do que o partido como referência do voto para 14,7 milhões de pessoas, ou 58% dos entrevistados (Gráfico 18).

Fontes de Informação para Decidir o Voto

A televisão é o veículo de comunicação mais comum no momento de decidir em qual partido ou candidato votar. Todavia, a sua utilização aumenta com o nível de instrução: a proporção de pessoas com mais anos de estudo que utiliza a TV como fonte de informação para decidir o voto é 1,5 vezes maior do que a daqueles com menos anos de estudo (Gráfico 19). Amigos e parentes, em geral, são importantes para decidir o voto, pois cerca de 30% das pessoas os mencionaram. Ao contrário, igrejas, cultos e sindicatos são fontes de informação insignificantes para o voto, pois utilizadas por parcela muito reduzida da população. O jornal é mais comum entre as pessoas de escolaridade mais alta (Gráfico 19).

      1. - Representação de Interesses

Solicitados a escolher dentro de um grupo de instituições e de pessoas previamente selecionadas qual as que melhor defendiam seus interesses, 62% dos entrevistados respondeu que nenhuma delas cumpria esta função (Gráfico 20). Dos que apontaram alguma instituição ou pessoa, proporções muito pequenas indicaram aquelas representativas dos sistema judiciário ( juizes, 11%) e de representação política ( presidente da república, 14%, políticos, 17%). Igrejas e cultos(29%), e sindicatos (23%) foram as instituições apontadas como as que mais defendem os interesses dos entrevistados.

A indicação do sindicato ou das igrejas e cultos como instituições mais representativas de interesses é influenciada pelo nível de escolaridade dos entrevistados.

Como se vê no Gráfico 21, a proporção das pessoas que indicam o sindicato cresce com o nível de escolaridade, decrescendo a das que indicam igrejas e cultos.