MORUMBI RICO, MORUMBI POBRE
Os contrastes do bairro, que tem as maiores concentrações de renda da cidade e cuja população favelada representa 47,7% do total de moradores, vão influenciar o plano diretor da região, que está sendo elaborado com um enfoque nas questões sociais
O Estado de São Paulo - 13 de outubro de 2002
Marici Capitelli
Um dos bairros mais luxuosos e tradicionais da cidade, o Morumbi, zona sul, convive com uma realidade cruel: a população favelada representa 47,7% do total de moradores. As ruas que dividem os dois mundos são tênues e, cada vez mais, os imóveis de alto padrão se aproximam dos barracos.
Três favelas circundam o Morumbi. A maior é a do Real Parque, onde moram cerca de 16 mil pessoas - três mil em apartamentos do Cingapura. Na comunidade do Panorama, são cerca de 2 mil habitantes. A menor é a de Porto Seguro, com 1,5 mil moradores. A região, porém, se localiza numa das áreas mais valorizadas do bairro - o Jardim Morumbi.
A população carente do Morumbi corresponde a 1,83% do total de moradores das favelas da capital. O porcentual se baseia na estimativa dos líderes comunitários das favelas, segundo o censo do IBGE.
A renda dessas famílias gira principalmente em torno dos vizinhos ricos, já que a grande maioria trabalha nas mansões como empregadas domésticas, babás e seguranças. Nessas áreas privilegiadas vivem cerca de 34,5 mil pessoas, o que corresponde a 0,33% do total de habitantes da capital, também de acordo com o IBGE.
Essa realidade conflitante - que convive junta numa área de 1.140 hectares - vai influenciar diretamente o Plano de Bairro do Morumbi e o Plano Regional do Butantã, previsto no Plano Diretor. Com isso, o Plano do Morumbi está sendo elaborado com um enfoque muito claro: as questões sociais.
"Não podemos ignorar o grande número de favelados do Morumbi. Por isso, estamos defendendo que o plano diretor do bairro seja voltado para os aspectos sociais", afirma o engenheiro Aloysio Camargo Filho, de 58 anos, conselheiro da Sociedade dos Moradores do Morumbi e diretor da Associação de Segurança e Cidadania.
O enfoque social do plano diretor do Morumbi pode deixar perplexo quem não conhece a realidade da região. Afinal, num bairro arborizado, com total infra-estrutura e que tem uma das maiores concentrações de renda da cidade serão apontadas necessidades como urbanização, transporte, saúde e educação.
A proposta inicial da Prefeitura tratava da discussão do zoneamento e das vias públicas.
"Mas estamos com outro foco porque é uma obrigação social reinserir essa população de forma adequada na cidade", pondera Aloysio, que mora no bairro há 24 anos e levou um susto no final do ano passado ao cruzar os dados dos moradores das áreas nobres do Morumbi com os de seus vizinhos favelados.
Representantes dos dois lados estão se entendendo
No que se refere ao transporte, por exemplo, o Plano Diretor Regional (que será feito a partir dos planos de bairro) vai priorizar a extensão do Metrô até o Taboão e a utilização de micrôonibus ou lotações que circulam pelo bairro e têm acesso a estações de Metrô e trens.
Para discutir as questões sociais, Aloysio tem reunido toda a semana cerca de 30 entidades de toda a região do Morumbi. Nas reuniões participam representantes de comunidades ricas e pobres.
Os encontros vão permitir a criação do Plano Diretor dos Bairros e, depois, o Plano Diretor Regional, que envolve o Morumbi e bairros como Vila Sônia, Raposo Tavares, Rio Pequeno e Butantã.
"Temos que conseguir um plano regional que promova a integração dos projetos de todas as comunidades para beneficiar a região como um todo", aposta Aloysio.
A arquiteta Regina Monteiro, do Movimento Defenda São Paulo, acredita que a experiência do Morumbi é única no mundo. "É um bairro que concentra o mais alto poder aquisitivo da cidade e o mais baixo também. E os representantes dos dois lados estão conseguindo discutir juntos."
Os preços dos imóveis no Morumbi podem variar de R$ 3 mil, num barraco, a mansões de mais de R$ 1 milhão.
Na opinião de Regina, a discussão em sociedade é o caminho para a solução dos problemas. "É quando as pessoas percebem que o problema do vizinho é também o seu, e não se limitam a exigir que as favelas sejam retiradas", diz. Ela ressalta que, se a comunidade elaborar projetos bem embasados, poderá obter recursos no exterior para a realização das obras sem precisar do governo.
Jailton Ribeiro da Silva, de 30 anos, é presidente da Associação dos Moradores do Real Parque. "A população favelada é sempre esquecida. Com a força dos moradores do lado rico, as chances de obtermos melhorias são muito maiores", avalia.
O líder comunitário da Favela Panorama, José Arnaldo Barbosa, de 31 anos, ainda está desconfiado da situação. "É sempre tão difícil conseguir qualquer melhoria para a favela que ainda não dá para acreditar", diz o líder, que tenta em vão montar uma fábrica de blocos na região.
O subprefeito do Butantã, Carlos Alberto da Silva Vieira, define o Morumbi como o 'Brasil real' - com suas realidades contrastantes tão próximas. Ele também enfatiza a prioridade social, mas vai além da simples urbanização das favelas. "A questão passa por moradia digna para essa população e não apenas asfaltar ruas e colocar luz".