Pelo menos até a vinda da Inquisição para a Colônia (1591-1595), os cristãos-novos integraram-se bem à sociedade local: conviviam com cristãos-velhos portugueses e com eles compartilhavam novas experiências, freqüentavam igrejas, realizavam negócios e casavam-se entre si.





Inserção na sociedade local

De fins do século XVI a meados do século XVII, vários senhores de engenho de origem cristã-nova viviam na Bahia, e eram, também cristãos-novos, boa parte da chamada açucarocracia pernambucana, formada por senhores de engenho, traficantes de escravos e grandes comerciantes.

Casamentos de Cristãos-Novos com Índios, Mestiços
e Cristãos-Velhos, 1591-1595
Local\Parceiros Índios Mestiços(pardos ou mamelucos) Cristãos Velhos Cristãos Novos
Bahia 2 2 27 28
Pernambuco - 1 43 26
Itamaracá - - 14 12
Paraíba - 1 5 -
Total 2 4 89 66

Durante todo esse período, além dos já citados senhores, cujas posses e engenhos os situavam no mais alto degrau da sociedade colonial, havia também os cristãos-novos artesãos, pequenos lavradores, comerciantes, bacharéis, militares e cirurgiões estabelecidos em diversas capitanias.

Apesar da proibição formal da participação na administração da colônia, também havia muitos cristãos-novos ocupando postos importantes, como cargos políticos nas municipalidades e posições de alto escalão na burocracia e no clero.

A intolerânica religiosa

A vida na Colônia não foi sempre fácil para os cristãos-novos. A presença de um visitador da Inquisição incitou denúncias de heresias, e de delitos em geral contra a fé católica. Os motivos das denúncias podiam ser religiosos ou econômicos, mas por uma razão ou outra, os cristãos-novos viveram longo tempo sob o signo da desconfiança: seriam criptojudeus (judeus ocultos), mantendo o judaísmo às escondidas por várias gerações, ou haviam se tornado bons cristãos? Muitos eram denunciados apenas porque mantinham certas tradições judaicas, embora nem sequer soubessem a origem desses rituais: só na prisão iriam entender, por exemplo, que seguir o costume familiar de fazer pão ou limpar a casa às sextas-feiras era parte da tradição judaica.

A liberdade de culto

A primeira experiência de liberdade para as práticas judaicas ocorreu entre 1630 e 1654, com a invasão holandesa. Nesse período, muitos judeus holandeses, de origem portuguesa e espanhola, estabeleceram-se em Pernambuco, tendo se destacado principalmente no comércio de açúcar e escravos, e pela aquisição do direito de arrecadação de impostos, exercendo funções semelhantes às praticadas há séculos na Europa. Motivados pela chegada desses judeus, muitos cristãos-novos vivendo nas redondezas decidiram declarar abertamente o seu judaísmo.

Francisco Leão Cohn
Mas a liberdade para a prática do judaísmo na Colônia só foi garantida na Constituição do Império do Brasil, 12 anos depois da quebra da intolerância religiosa pelo tratado comercial de 1810, assinado entre Portugal e Inglaterra. Nesse tratado foi permitida a liberdade de culto dos protestantes, súditos da Coroa Inglesa, que passariam a frequentar os mercados do Reino.

Os efeitos da liberdade religiosa não tardaram a aparecer: ainda nas primeiras décadas do século XIX, comerciantes judeus ingleses e franceses mudaram-se para o Rio de Janeiro. O mais conhecido deles, o francês Bernard Wallerstein, era dono de uma casa de moda feminina, tendo sido o maior fornecedor da Casa Imperial, sendo um dos personagens de Joaquim Manuel de Macedo, o "Carlos Magno da rua do Ouvidor".

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